Editora Impacto Literário
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A hora que ninguém cronometra

Há uma aritmética que o Brasil evita fazer em voz alta. Comece pela mais simples. Numa jornada de oito horas, bastam algumas, em certos setores, menos de uma, para que o trabalhador tenha produzido o equivalente ao próprio salário.

A hora que ninguém cronometra

O restante da jornada produz outra coisa: valor que se reparte entre proprietários, credores e uma fatia do Estado. Não é denúncia. É contabilidade. O incômodo não está no número, está em que o número existe e quase nunca é enunciado. Vá à segunda camada, e ela desmonta um consenso confortável. Reclama-se da carga tributária como se ela pesasse sobre o lucro. Não pesa ou pesa muito menos do que se imagina. Em 2025, a carga tributária bruta brasileira chegou a 32,40% do PIB, a maior da série histórica iniciada em 2010.  Mas o que importa não é o tamanho: é a base. Os impostos sobre bens e serviços responderam por 13,78% do PIB, enquanto os tributos sobre renda, lucros e ganhos de capital ficaram em 9,16%.  A comparação internacional expõe a anomalia: enquanto o Brasil concentra a arrecadação em consumo e folha de pagamentos, os países da OCDE distribuem o peso sobre renda e patrimônio.  Tributar consumo significa tributar a etiqueta. A empresa embute, repassa, recolhe e quem pagou foi quem comprou. A prova está nos próprios relatórios corporativos: a receita líquida já vem depurada desses tributos, porque, para efeito de rentabilidade ao acionista, eles simplesmente não contam. O setor que mais protesta contra o imposto é, tecnicamente, o que menos o suporta. E há o dado que fecha o argumento. O estudo conduzido por Gabriel Zucman e pesquisadores com acesso a registros administrativos da Receita Federal mostrou que os milionários em dólar, quem recebe acima de cerca de R$ 5,5 milhões por ano, pagam alíquota efetiva de 20,6%, contra 42,5% do brasileiro médio.  Nos demais países, esse mesmo estrato paga entre 22% e 42% da renda.  Não é evasão. É desenho legal. A terceira camada é a concentração. O 1% mais rico detém 27,4% de toda a renda do país; o 0,1% , cerca de 150 mil pessoas, com renda média anual de R$ 4,6 milhões fica com 12,4%; e o 0,01%, quinze mil pessoas com rendimento médio de R$ 23 milhões por ano, concentra 6,1%.  Quinze mil pessoas. Cabem num estádio médio. Do outro lado da mesma estatística: os 10% mais ricos concentravam 40,3% da massa de rendimentos domiciliares em 2025 , parcela maior do que os 32,8% que couberam aos 70% mais pobres somados. Os 10% mais pobres viveram com R$ 268 mensais, cerca de R$ 8,93 por dia.  E a concentração não é acidente de percurso do mercado é sua regra de funcionamento. Quem tem capital maior não precisa ter a melhor ideia: compra a de quem teve. O YouTube não venceu a Google, foi adquirido por ela pouco mais de um ano após o lançamento. A cafeteria da esquina não perdeu para a rede, foi comprada antes de poder disputar. O que essas camadas tem em comum é serem verificáveis. Estão em boletins do Tesouro, em registros da Receita Federal, em microdados do IBGE. Não dependem de convicção ideológica para existir, dependem apenas de alguém disposto a ler. E é exatamente aí que a disputa se dá: não entre quem tem razão, mas entre quem acessa o dado e quem recebe a narrativa já digerida. O número não liberta sozinho. Ele só começa a operar quando alguém o retira da planilha e o coloca diante da pergunta certa. E a pergunta é simples: se o cálculo está disponível há décadas, por que seguimos discutindo o tamanho do imposto e quase nunca quem, de fato, o paga? Texto escrito por Maria Lima